Por Eduardo Ferreira Moura

27.5.12

Pretensão


Sou da terra
Sua ausência me fasfalta.

1.5.12

... Beijo

A verdade é que sempre fomos dois idiotas. Felizes, mas idiotas. Indiscutivelmente idiotas. Sempre tínhamos péssimas idéias, mas elas sempre nos pareciam razoáveis, porque tínhamos um ao outro e, no fundo, é o que importa. O resto da vida é poeirinha debaixo do tapete da sala.
Aquele dia na estrada, quando você me beijou - vou usar a palavra beijo na falta de uma palavra melhor, uma que expresse amor e erotismo, mas que preserve a moral sobre o seu jazigo -, era outra dessas nossas idéias típicas... E depois daquele... Beijo - Antonioni que nos perdoe -, a vida inteira passou a ser poeirinha debaixo do tapete da sala. Você está aí, mais linda do que nunca, maquiada e eternamente vestida para festa, enquanto os vermes permitirem. Eu estou cá, condenado a carregar para sempre as cicatrizes deixadas pela sua ausência.
Sua mãe, coitada, envelheceu dez dos vinte anos que ainda devia ter pela frente. Está naquela de manter seu quarto preservado, intocado, como se um dia você pudesse resolver voltar para casa e quisesse terminar de ler o Saramago que deixou em cima da mesa do computador. Sim, ele ainda está lá, empoeirando como tudo no seu santuário. Como eu. Sua tia enlouqueceu de vez. Ela sempre foi uma velha maluca, esperando a oportunidade certa para ser louca. Pois bem, agora deu para tricotar sapatinhos para os filhos que não teremos. Já minha mãe, enfim te ama.
Foram três semanas ruins, se quer saber. Mas aos poucos as pessoas voltarão para suas vidas, para o que há por cima do tapete da sala. Menos eu, condenado a acariciar as cicatrizes quando a saudade aperta. Desejando estar morto, para poder entregar pessoalmente essa infinidade de cartas. É que estou sem grana para o correio e outros problemas que não são mais seus. A sala aqui de casa não tem tapete, não sei se você lembra.

24.4.12

Temporal

Quando Marcelinho resolveu que entraria para a graduação em Meteorologia, todos torceram o nariz. Não só porque era uma profissão ainda recente e não estabelecida no país, mas também porque os meteorologistas erravam todas naquela época. E também nesta.
Mas Marcelinho seguiu em frente e graduou-se, sendo promovido, então, a Marcelo. Um nome que, particularmente, nunca gostou.
- Marcelo é um nome que escorre da boca. Presta atenção: Marcelo... Marceelo... Marceeelo... Prefiro Marcelinho mesmo. Escorre menos.
Mas seu escorregadio título mostrou-se provisório quando, uma vez graduado, foi contratado por uma companhia estrangeira. O povo dizia que Marcelinho errava tanto aqui, que resolveram mandar ele lá para longe. Pelo contrário, Marcelo Silva foi promovido a monsieur Silva - Messiê Silvá, eles diziam - lá na França, para mentir sobre o tempo, agora, aos franceses.
Marcelinho ficou chique da noite para o dia. De repente, todas as meninas de Bento Ribeiro descobriram que eram apaixonadas por ele desde a infância. Fenômeno meteorológico mundial, aliás, que se repetiu também no velho continente.
- Soube do Marcelinho?
Outro dia perguntaram no botequim.
- Que tem ele?
- Se deu bem, rapaz. Menino estudioso também.
- O Marcelinho? Era meio maluco. Caçava lagartixa no quintal da minha avó pra brincar de cirurgião quando era criança. Cirurgião de lagartixa! Estudioso nada, o Marcelinho era meio maluco, isso sim. Mas o que tem ele?
- Você tá por fora. Com esse negócio de meteorologista ele largou as lagartixas. Tá lá na Europa, na França. Ganhando uma nota preta. Arrumou até uma francesa pra ele. Lourinha, precisa ver só. Mandou foto esses dias. Ela tá grávida. O Marcelinho tá todo bobo.
- Tá todo bobo ele?
- Tá.
- Ele é bobo, isso sim. O Marcelinho caiu foi num golpe.
- Golpe?
- Golpe.
- Como golpe?
A Sociologia de Botequim não tem limites.
- Imagina um gringo que vem trabalhar aqui no Brasil, um gringo cheio da nota.
- Tô imaginando.
- Imagina que uma mulata se enrabicha com o gringo e apanha barriga logo, logo.
- Tô imaginando. Malandra.
- Foi justamente o que aconteceu com o Marcelinho!
- Mas ele arrumou uma lourinha!
- Mas tu é burro que nem ele, hein. Na França as mulatas são lourinhas, rapaz!
Messiê Silvá prevê, como ninguém, o tempo na França. Mas o tempo de Messiê Silvá está previsto em Bento Ribeiro.

***
Muito obrigado a quem compareceu, retuitou, compartilhou e indicou o lançamento do livro. Deu tudo certo! Quem não pôde ir pode adquiri-lo aqui, ou me mandando e-mail. Três contos do livro se classificaram para o concurso literário da Câmara Municipal de Caçapava do Sul. Por isso, agora em Maio estarei na Feira de Livro do Rio Grande do Sul (essa que o Gabriel, o Pensador, cobrou 170 mil reais pra participar), e dia 10 recebo na Câmara minha menção honrosa. Aliás, nossa, leitor! =)

25.3.12

Concurso Escritor de Verão & Lançamento do Próximo Livro

Odeio propaganda. Inclusive - e talvez principalmente - autopropaganda, auto-propaganda, auto propaganda... Sei lá, desaprendi a escrever depois da reforma ortográfica.

Mas se faz necessário. Então, vou usar esse post para fazer DOIS jabás ao mesmo tempo, poupando assim a paciência de vocês.

Em primeiro lugar e mais importante: Lançamento do meu segundo livro, Meus Textículos. São cinquenta contos curtinhos, todos sobre o mesmo personagem sem nome. No fim das contas é um romance disfarçado. Mas os contos não estão conectados, podem ser lidos em qualquer ordem e mesmo ignorados.


O lançamento é em 14/4, no Espaço Multifoco: Mem de Sá, 126 Lapa. Às 18h, conforme diz aí em cima. E também aí embaixo:


Mas eu prometi dois jabás, não apenas um! O segundo jabá é do Concurso Escritor de Verão. O texto "O Último Adeus de Regininha", publicado originalmente aqui no blog, foi selecionado e depende do seu voto. Clichê, né? É que o prêmio desse concurso literário, entre outras coisas, inclui uma entrevista bacana, coisa boa para divulgar o livro e não encher mais o saco de vocês com isso! Para votar, basta clicar no link aqui embaixo. Retuitar e compartilhar é um baita favorzão também.


É isso! Perdão pelas propagandas, mas foi necessário. 2012 começou bem, agradeço a quem tem visitado o blog, o Obvious e o Letras.

Nos vemos dia 14!

P.S.: Sei que prometi dois jabás, não três. Mas o Notas de Um Velho Sem Câncer, crônica publicada originalmente no Obvious, também foi publicada no Podler e está no páreo para ser a melhor crônica do mês. Quem quiser votar, aqui está o link para todas as crônicas. Basta clicar nas (cinco!) estrelinhas. Esse jabá foi mais discreto porque o texto já está mega bem cotado por lá, mas vale a pena conferir.

10.2.12

O Último Adeus de Regininha

Nunca transei drogas. A Mariazinha dizia que é porque eu já sou doido careta, imagina drogado. A verdade é que nunca bateu. Fumar só me dá dor de cabeça, nenhuma viagenzinha. Por isso não fumo. Nada contra quem fuma, cheira, ingere, passa no cabelo, enfia no cu... Cada um na sua, cada um no seu.
Acontece que a Regininha fuma. Tudo bem, nada contra, como eu disse. É até mais saudável do que cheirar ou enfiar no cu. Sendo que ela usa muito pouco, uma vez por semana, se tanto. É nosso brinquedinho sexual. Ela fuma um e depois viaja na nossa transa. Mas nem sempre, porque senão eu me sinto um lixo. Sinto que ela não me curte tanto quanto curte a droga. Então é necessário transar careta às vezes, para manter o moral.
Quando ela acende os dela, sempre me pergunta:
- Não quer?
Não quero. Não adianta, continuo (continuaria) sem achar graça do que não tem graça. Mas fico meio feliz com isso. Só que tem uma coisa que eu não disse: eu amo a Regininha. Tanto que nem a chamo de Regininha. Só chamo a Regininha de Regina, porque é assim que eu chamaria a mãe dos meus filhos. Mesmo que ela se chamasse Márcia, ou Andréia, só a chamaria de Regina, porque é assim que eu chamaria a mãe dos meus filhos.
Ela não é daqui, porque gente legal nunca é daqui. Ela é de algum lugar escroto, mas que a gente acha legal porque ela é de lá. Só que ela está aqui, o que é muito bom.
- Mas eu tenho que ir lá pegar umas coisas.
Ela disse. Fiquei tenso, então. Eu amo a Regininha, acho que a Regininha me ama. Não curto ela viajando no verão para lugares que não são aqui. Mas não havia jeito, segundo ela.
- Eu volto. Eu não vim?
Grande merda. A gente foi vivendo assim, até que chegou o dia de ir embora. Preparei uma surpresa. Surpresa ilícita, porque surpresa boa é surpresa ilícita. Enrolei um baseado no capricho, generoso na quantidade e na qualidade da planta. Sei enrolar baseado porque namorei a Jussara, que fumava que nem um jamaicano às quatro e vinte. Ela me ensinou a enrolar quando a maquininha quebrou. (Jussara tinha uma porra de uma maquininha de enrolar baseado, dá para acreditar?).
Então Regininha chegou. Veio para uma transa de despedida, por mais que dissesse que não era uma despedida, era apenas um final de semana afastado e tal... Mostrei a ela o baseado imperial que eu havia preparado e os olhinhos dela brilharam:
- Hoje você vai fumar comigo?
- Não. Hoje é careta. Você também não vai fumar, para se lembrar de cada detalhe. Enrolei esse pra fumar contigo, mas só na volta.
Coloquei o baseadão em uma caixinha e a fechei. Regininha ficou louquinha. Nem havia ido e já estava ansiosa para voltar e fumar o baseado-rei comigo. Então a gente transou uma transa muito louca, louquinha como a Regininha. Melhor, inclusive, do que as transas que a gente transava drogado. Porque eu não fumo, mas tenho que admitir que fumada a Regininha transa melhor.
A gente começou na cama e rolou para o chão. E rolou para debaixo da cama. E ficamos naquele frenético sobe e desce, dando com as costas no estrado e fazendo um barulho da porra, como se estivéssemos fazendo tudo pela última vez, como se no dia seguinte ela estivesse se mudando para Auschwitz. Suando como porcos apaixonados e bufando como bezerros famintos. Mordendo que nem jacaré com fome e beijando que nem tamanduá na formiga. Altos bichos. Até a extinção. Ficamos caídos no carpete, por cima de uma poça de suor e sabe-se lá mais o que. O melhor tempero é a fome, o melhor lubrificante é o amor.
Regininha levantou, tentou andar e caiu no chão. Perninhas finas e bambas. Dormimos como estávamos, no carpete. Dissemos nosso último adeus em sonho.
Não sei quantas horas depois, acordamos para uma ducha. Roupas.
- Tchau.
Ela disse na porta. Insisti:
- Você volta?
Eu amo a Regininha.
- Claro que volto, seu bobo.
- Na volta, já sabe.
Juntei o polegar e aquele outro dedo que a gente usa bastante e os levei a boca, fazendo mímica de fumar. Ela riu, beijou meus dedos e minha boca. Fechei a porta atrás de sua silhueta perfeita. Espiei pelo olho mágico, como de costume. Ela acenava com uma mão e mandava infinitos beijos com a outra, até entrar no elevador.
Então mofamos. Eu no sofá, ele na caixinha. Maconha e amor, se não guardar na geladeira, dá mofo mesmo.

5.2.12

Papel Passado

Nas tuas fotografias, sempre tão linda, odeio pensar na câmera, capturada em uma armadilha através do espelho. A presença dela me faz lembrar que naquela fração de segundo em que o obturador esteve aberto, você não esteve minha. Queria ser eu o eterno prisioneiro do espelho. Não a câmera.

31.1.12

Frustração

Não há novidades após os dez anos de idade. A Medicina pode nos obrigar a viver até os duzentos anos, mas nunca será capaz de promover sentimentos inéditos. Todas as emoções que sentimos ao longo da vida são variações dos sentimentos experimentados na infância. Por isso, é imprescindível evitar o sofrimento das crianças. Os próprios relacionamentos amorosos, cujos inevitáveis fracassos nos perseguem até o túmulo, nada mais são do que uma sofisticação do abandono inevitável que acompanha o crescimento.
Lembro quando inauguraram a loja de sanduíches de miga em Vila Isabel. Foi uma sensação, principalmente para quem não fazia idéia do que era miga. Todos comentavam sobre a delícia que era o sanduíche argentino e a beleza que era lojinha. Chamava-se La Fabrica. Chama-se, aliás. Está lá na 28 de Setembro até hoje.
Assim, foi com crescente expectativa que fui ao aniversário daquela menina. Nem lembro o nome dela, mas lembro que havia a promessa de sanduíches argentinos. Eles vinham em múltiplos de doze, em caixas brancas e rosas. Salivava de curiosidade quando me debrucei sobre a caixa pela primeira vez na vida. Enfim, conheceria os tais sanduíches argentinos.
Então, descobri que na argentina o sanduíche é com um pão de forma amassado sem vergonha, queijo e presunto. Pastinha de azeitona, quiçá. Passaram-se muitos anos. A cada nova frustração, o mesmo gosto de sanduíches de miga.

24.1.12

Cenouras

Texto escrito para a Revista Elis, assinado com o pseudônimo de Maria Regina Moraes.
***

- Você é destra ou canhota? Então, segura a cenoura com a mão direita e põe a mão esquerda em cima do ralador. Segura firme na cenoura, pega entre o meio dela e o topo. Também não precisa apertar, é só segurar firme. Agora fica aí, pra cima e pra baixo. Não faz com pressa pra não se cortar, mas também não faz devagar porque senão não vai ralar.
Tinha doze anos quando mamãe me disse essas sábias palavras. Dali em diante, passei a enfeitar minhas saladas de folhas também com cenoura ralada. Experimentei variações, com ralo grosso e ralo fino. Depois, notei que pepino e outras coisas poderiam ir ao ralador também e fui sofisticando as saladas cada vez mais.
Passaram-se, então, muitos anos. Casei e só bem depois tive a Marieta. Mamãe faleceu. Marieta cresceu. Arnaldo enfartou, mas não morreu. Marieta cresceu mais. O Brasil foi eliminado da Copa de noventa. Marieta começou a crescer de um jeito diferente, na cintura. Tenho certeza de que ela acha que não notamos. Arnaldo realmente não notou, mas eu... Eu sou mãe. Então, quando ela sentou aqui na namoradeira da sala para dizer que queria conversar comigo, já sabia bem do que se tratava. Fiz minha cara de cínica (mamãe que me ensinou também):
- Que foi, minha filha?
- Estou grávida.
Ela disse. E começou a chorar. A maternidade é a coisa mais linda do mundo. Só quem é mãe sabe disso. Não há fenômenos natural, social, físico, químico ou econômico que se compare com a maravilha que é gerar um ser dentro de um ser. Ainda assim, minha vontade naquele instante foi de dar com a cabeça da Marieta no console da sala. Ao invés disso:
- Marieta, minha filha... Mas como você foi...
Abracei a coitadinha da idiota da minha filha. Só quem é avó sabe como é.
- Quem é o pai, minha filha?
Ela, então, recompôs-se rapidamente.
- Claro que é o Ricardo!
Respondeu como que ofendida. Menos mal, ao menos ela tinha caráter. Namorava Ricardo e apenas ele há quase dois anos. Duas crianças. Duas crianças boas, excelentes, mas duas crianças. O pai do Ricardo tem uma padaria, Arnaldo é funcionário público. De fome a criança não morreria. Claro que eu ajudaria a cuidar enquanto os pais endireitavam a vida, buscando os próprios caminhos, mas ainda assim tínhamos um problema enorme nas mãos. No caso de Marieta, um problema de três quilos no ventre.
- Você já contou pra ele?
- Não.
Chorou mais. Choraria ainda mais quando fosse a hora de contar para o pai. Homem é bobo, sempre acha que as mulheres da própria família não fazem sexo. Pois saibam, nós fazemos, ou no mínimo fizemos. Marieta ainda faz.
- Você não sabe que tem que usar camisinha, minha filha?
Estava inconsolável, não conseguiu me responder, mas eu sabia que ela sabia. Não era hora de discursar sobre métodos anticoncepcionais. Havia um bebê ali e a preocupação deveria ser com ele. Expliquei-lhe que, por mais inconseqüente que tivesse sido sua atitude, aquele bebê deveria ser muito querido, agora que viria a ser uma realidade nas nossas vidas. Enxuguei as lágrimas do seu rosto, um rosto lindo, rosto de criança. Expliquei que gravidez é saúde, não havia porque chorar. Não adiantava chorar. Era questão de pensar no futuro dali em diante. O futuro começaria naquela noite, quando Arnaldo chegasse do trabalho. Ela não queria dar a notícia, evidentemente. Morria de medo da reação do pai. Assumi as rédeas da situação e soltei a notícia sem rodeios, como deve ser:
- Marieta está grávida.
Fiz questão de que ela estivesse presente, para aprender através do meu exemplo como se deve ser mãe, mediando conflitos irremediáveis. Arnaldo tentou voar em seu pescoço, mas interrompi seu showzinho:
- Pode parar de palhaçada. Já conversei com ela, foi um acidente. Agora a gente precisa pensar em como vai ser a vida desse bebê. É seu neto.
Ele deu alguns berros, mas não passou disso. Uma tempestade nos copos da nossa cristaleira. No dia seguinte, fomos à casa de Ricardo ter uma conversa franca com a família inteira reunida. Eles escutaram com surpresa. Olharam feio para Ricardo, mas não ousaram levantar a voz para Marieta. Ao contrário, estavam dispostos a aceitar aquela situação como adultos esclarecidos. Ronaldo, pai do Ricardo, ficou de colocar o menino para trabalhar na padaria, coisa que já devia ter feito há muito tempo. Lembrei-me, aliás, que na família do Ricardo eles têm essa mania de nome com R. Experimentei certa peninha do meu neto.
Fomos tratar, então, do pré-natal, que não durou quatro meses. A implantação do feto foi ectópica, uma gravidez complicadíssima. Inicialmente, sofremos todos porque ali havia uma criança. Depois, sofremos todos porque ali não havia mais uma criança. Perder um filho é muito mais difícil do que ter um filho. Chorei por duas semanas, todas as noites, depois que todos já dormiam. Não só pelo meu neto, mas também por Marieta. Não ser mãe também é padecer, só que fora do paraíso.
Ricardo e Marieta chegaram a terminar o namoro. Juravam de pés juntos que não tinha a ver com o bebê, mas tinha. Sempre tem. Com o tempo, reconciliaram-se e a vida foi voltando ao normal aos poucos.
Um dia, estava na cozinha preparando o almoço e me ocorreu de gritar à Marieta, que prontamente correu até a cozinha.
- Filha, eu tava pensando aqui, como você engravidou? Vocês não usavam camisinha?
Marieta fez uma careta, não esperava esse assunto. Andou em círculos na cozinha, até que disse:
- A gente tava sem no dia. Não sabia o que fazer.
Soltei um suspiro longo. Estendi-lhe uma vasilha:
- Você sabe ralar cenouras?

15.1.12

Monóico

O mundo procura uma alternativa sustentável para o capitalismo há não sei quantos anos e não desconfia de que essa alternativa está aqui no quarto, despretensiosamente largada em cima da minha cama. Agora nossa cama. A única alternativa possível ao capitalismo é nosso cobertor. Uma mantinha azul e felpuda capaz de derrubar muros, fronteiras, cadeados e preconceitos. Debaixo dela, um território realmente neutro e laico, onde não existem posses. Em suas fronteiras, tudo está sujeito a uma constituição própria que abole em cláusula pétrea todo e qualquer pronome possessivo. Lá debaixo, aqui debaixo, não existe meu braço, suas pernas, suas coxas, minhas costas, é tudo nosso e ao mesmo tempo de ninguém.

O pau, que a vida inteira chamei de meu, deixa de me pertencer. Quando entra no seu corpo, que também não é mais seu, não me permite saber quem é que tá comendo quem. Sinceramente, não me importa. Não nos importa. Sem posse não há gênero, número ou grau. Debaixo dessa manta não há política, gramática, aritmética ou filosofia. Lá debaixo, aqui debaixo, somos um único ser. Um monstro monóico.

11.1.12

Notas de um Velho Sem Câncer

Hoje peguei o resultado da biópsia. Acabo de descobrir que não tenho câncer. Nadinha. Nenhuma célula desse corpanzil está se reproduzindo descontroladamente. Desconfio disso há quase dez anos, mas os médicos insistiram em me furar para ter certeza. E agora têm. Não vou morrer por enquanto. A não ser que seja atropelado por um 432 aqui na porta, atravessando a rua para ir ao Hortifruti (a padaria é do mesmo lado da calçada; o mercado é uma porcaria, de maneira que opto pelo Hortifruti).
Declaro minha boa saúde com algum pesar. Isso porque, desde que Steve Jobs descobriu aquele câncer, não sei quantas mil pessoas descobriram um câncer também e sentiram-se no direito de passar sermões em nós outros, reles saudáveis. A gravação do discurso do Jobs na formatura da turma de 2005 de algum curso de Stanford percorreu o mundo. Lá, ele dá três lições de vida, bastante honestas até - na minha modesta e não-melanômica opinião -, que parecem ser levadas muito mais a sério quando ele nos revela o diagnóstico do câncer no pâncreas (que por fim o matou). Era um homem fantástico, temos que reconhecer. Mais do que computadores, ele nos vendeu a idéia da computação, a idéia de compartilhar, a idéia de iPod, a idéia de câncer e outras.
De 2005 para cá, cansei de ler que não sei quem está na "batalha contra o câncer" e escreveu um livro sobre a vida e não sei o que, não sei o que lá. Não quero ser cruel. O câncer é uma doença terrível, devastadora, normalmente fatal (estou me arriscando aqui, com esse normalmente), mas que em alguns casos permite que se receba a comissão da editora, que é paga trimestralmente, ao contrário de alguns casos da AIDS, por exemplo.
No mais recente dos casos que chegou à minha escrivaninha, um americano descobriu seu câncer e escreveu, note-se, vinte e oito resoluções para se levar uma vida feliz. Vinte e oito! Três vezes nove mais uma. Minha filha assinou Sky na casa dela (porque se casou com um bocó que não sabe dizer não a um operador de telemarketing). Aqui em casa tenho Net. Nunca consigo me lembrar o número do canal Discovery Channel quando estou lá e quando estou aqui. O tal americano quis que nos lembrássemos de vinte e oito resoluções para sermos mais felizes. Não há felicidade nisso.
Mas quem sou eu para dizer isso? Sou só uma pessoa sem câncer. No entanto, como cidadão sem câncer, sinto-me também no direito de deixar, a seguir, meu legado, por mais que não pretenda morrer por esses dias. Não é um manual de auto-ajuda, trata-se unicamente do que tentei (e tento) transmitir à essa minha filha ao longo desses anos todos em que ela parece não ter me escutado um minuto sequer.
Em primeiro lugar, não vejo propósito em esperar que se descubra uma doença em estágio terminal para só então tentar transmitir alguma coisa a alguém. Quem tem algum valor nessa vida (e mesmo quem não tem, mas acha que tem, como eu), deve tentar transmitir seus valores o mais rápido possível, porque o mesmo 432 que passa aqui na porta, passa na porta dos outros. Um dia pode se estar indo ao Hortifruti e... Pois então. Em segundo lugar, a vida não tem sentido algum, não adianta perder tempo procurando, então ela não deve ser levada a sério, jamais. Levar a vida a sério pode ser mais fatal do que câncer, além de causar calvície precocemente. Também é fatal se levar muito a sério. Se Deus existe, por mais que ele te ame, ele também não te leva a sério, ou teria te trucidado com as dez pragas do Egito na primeira ignorância que você fez ou falou, lá atrás. Rir de si próprio é fundamental, mesmo - e principalmente - quando a maioria das pessoas é incapaz de achar graça. E por fim, para ser minimamente feliz, é importante reconhecer seus erros e desculpar-se, mesmo que você tenha certeza absoluta de que está certo. Estar certo é uma babaquice sem tamanho e quem tem certeza absoluta de que está certo tem muito, mas muito mais chance de estar absolutamente errado.
Mas são apenas notas de um velho sem câncer, que não vai correr uma maratona ou pular de bungee jump, porque acaba de descobrir que não tem câncer. Um velho que pretende passar o restante da vida assistindo Discovery Channel no canal 51 (ou 52, sei lá), até que precise ir ao Hortifruti e nunca mais volte.

4.1.12

Óculos

Gosto da maneira como você arranca meus óculos com as mãos e minha roupa com a mente. Então, abre a maior boca que o mundo já viu e me come, me mastiga e me engole. E me vomita para me comer de novo. E me vomita. Com esforço me refaço e recoloco os óculos. Mas diante das minhas lentes não é o mundo que se descortina e sim suas impressões digitais. Melhor que ver o mundo.

2.1.12

Liquidificador de Hormônios

Tenho um filho. Essa é uma revelação estranha, porque dizer isso implica dizer que sou pai. Não me vejo pai. Embora também não veja meu pai como pai, o que em verdade não quer dizer nada. Mas meu pai é pai, sem dúvida, ele tem todo o jeitão de pai, por pior que seja. Eu não.
Foi um acidente. Quer dizer, para o homem sempre é. Para a mulher não. Não existe gravidez acidental para a mulher. Se a mulher tiver em mente que não quer ter filhos, não engravida nem se nadar em um oceano de porra. Já fiz o teste. É o melhor método contraceptivo que tive o prazer de conhecer. E o mais barato também. Mas não foi assim com a Tatiana.
Eu estava em São Paulo. Odeio São Paulo, porque São Paulo não é aqui. Odeio lugares que não são aqui. Estava lá a trabalho, isso no tempo que eu me levava a sério a ponto de suportar trabalhar em São Paulo. Eu me levava tão a sério que praticamente namorava a Tatiana. Ela sentia dores estranhas e tinha um ciclo menstrual muito irregular. Então, foi a um médico que, após alguns exames, sentenciou:
- Você tem ovários policísticos. Jamais poderá engravidar.
Acreditamos no idiota. Sobrava uma graninha naquela época e a vida era boa, apesar de estarmos em São Paulo. A gente comia bem e transava sem camisinha o dia inteirinho. Ela não podia engravidar e não tínhamos tempo de ter relações sexuais com outras pessoas, já que passávamos o dia todo tendo relações sexuais um com o outro. Relações sexuais, de fato, apenas quando nos conhecemos. Depois começamos a trepar, em verdade. Mas amor mesmo, nunca fizemos.
Então a menstruação atrasou demais, mesmo para os padrões dela. Uma amiga bem que lhe disse:
- Você tá com cara de grávida.
Pensando bem, ela realmente fez cara de mãe naquela semana. Lá pelas tantas do terceiro mês, comprou um teste de farmácia, desses que muda de cor. Resultado: bingo. Ela fez o teste na minha ausência e quando cheguei em casa vi que ela já não era a mesma. Acho que eram os hormônios ou sei lá, mas ela estava realmente feliz com aquilo. Uma felicidade plástica, quase artificial. Como se Tatiana tivesse batido hormônios com leite e açúcar no liquidificador e tivesse bebido até a última gota. Imediatamente lembrei-me dos seus ovários. Tive vontade de voltar no médico para lhe dizer que policísticos eram os ovários da senhora sua mãe. (Realmente). Essa não é exatamente a atitude de quem quer ser pai. É, pensando bem, eu não queria.
- Que bom!
Menti. Vivi aquela mentira por quase dois meses. Um dia encontrei com o Ferreira. Espero que o Ferreira nunca leia essas besteiras, porque da missa não sabe a metade. A gente se esbarrou por acaso, no mercado vagabundo que tinha na Liberdade. Filho é caro antes mesmo de nascer e eu já havia notado isso. Não estava sendo divertido. Ferreira trabalhava com caminhões no Rio de Janeiro. Perguntou se eu estava trabalhando.
- Não.
Menti.
- Acabei de ser mandado embora e tô precisando voltar pro Rio.
Ferreira me deu um cartão com um número de telefone. Liguei para o número e duas semanas depois estava em casa. No Rio de Janeiro, claro, em São Paulo não há casas, apenas indústrias de confeccionar maluco. Disse para Tatiana que ganharia mais aqui e que lhe mandaria dinheiro sempre. Ela estava tão grávida que entendeu. Acho até que acreditou. Mandei dinheiro por mais dois meses, até que o dinheiro começou a me fazer falta e eu parei de mandar. As pessoas têm a mania de me julgar por isso, porque elas próprias fizeram questão de sustentar, amamentar e limpar a bunda dos filhos até os trinta anos. Ainda assim seus filhos não as suportam. Grandes juízes são os juízes.
Então passou um tempo e meu telefone tocou.
- Pai?
Era a minha voz, só que do outro lado da linha. Não entendi como isso era possível, até que me lembrei da Tatiana. Será que já fazia vinte anos? Instintivamente levei a mão aos ovos.
- Quem tá falando?
- Eduardo. Seu filho.
Senti dor de estômago. Tatiana colocou no moleque o nome do ex-marido. Não fiquei com raiva nem ciúme, como penso que ela quisesse que eu ficasse. Fiquei com pena do moleque, o ex-marido da Tatiana não comia carne, era paulista e usava bermudas.
- Estou no Rio de Janeiro. Será que a gente pode se ver?
A coisa foi ficando cada vez pior. Pior assim. Mas tinha a certeza de que ele não me odiava. Ele é filho. Como tal, programado biologicamente para não conseguir me odiar jamais.
- Pode. Claro.
Com sorte ele me pagava uma cerveja. E me pagou. Entre um copo e outro me contou histórias tristes. Mas herdou, sem dúvida, meu orgulho. Não me pediu um puto sequer. Reparei também que ele herdou os olhos da mãe. Era o que de melhor havia para herdar dela depois dos peitos. O moleque deu sorte. Ela tinha bons genes no geral, dentes saudáveis inclusive. Olhos lindos.
- Meu filho tem olhos lindos.
Pensei. Quase senti orgulho. Foi o suficiente para me fazer pagar a cerveja, afinal. Ele tinha um estojo de violão nas costas, daquele tipo que parece guardar um vampiro. Bonito estojo, o moleque devia tocar bem. Explicou que era músico e que percorreria bares na Lapa atrás de emprego. Pensei em lhe apresentar algumas pessoas, mas depois me lembrei do relacionamento que tenho com essas pessoas e me toquei de que talvez eu o fosse atrapalhar. Ele quis ficar lá em casa enquanto isso.
- É a única coisa que eu te pedi em vinte e dois anos.
Moleque babaca. Economizou para poder pedir direitinho... Mas ele tinha olhos lindos e eu cedi.
- Por um tempo.
Pontuei.
- Por um tempo.
Concordou. Mudou-se aqui para casa. Carregava apenas uma mochila e precisou de roupas, mas ao invés de lhe comprar, dei minhas roupas velhas, que já não cabiam mais. Foi quase bonito vê-lo vestido de mim. Já as cuecas eu não quis dividir. Dane-se que são os meus genes e sangue do meu sangue. É um homem com cabelo no saco, cabelos que não são os meus. Comprei-lhe dez cuecas e uma caneta para tecido. Gravei uma letra E na lateral de cada cueca para não misturarmos as suas dez com as minhas dez. Fiz questão que fosse na lateral, porque não confio em um homem que anda por aí com a letra E gravada na bunda.
Não sei se ele conseguiu emprego. Conseguia se virar com trabalhos aleatórios. Trocava o dia pela noite na maioria das vezes e não tivemos muito tempo para conversar. Passou oito meses aqui, talvez um pouco menos. Pouco a pouco, a letra E nas cuecas foi se tornando a letra F. Às vezes C. Às vezes traços não identificáveis. Um dia notei que eu tinha doze cuecas e ele apenas oito. Um dia notei que eu tinha quinze cuecas. Um dia notei que eu tinha vinte cuecas e ambos soubemos que era hora do moleque partir. Não sei bem para onde foi, anotou um telefone em um papel. Comprei-lhe outras dez cuecas e não precisei escrever nada. Ambos soubemos que ele estava pronto para ter as próprias cuecas.

26.12.11

O Fim: Modo de Usar

Em um relacionamento, um sempre vai amar mais que o outro. Isso não sou eu quem diz, está na bíblia do amor mortal, a obra de Suzana Flag. Quem ama mais, sofrerá mais. Cabe, então, a quem ama menos, não se aproveitar dos sentimentos do outro quando lhe aprouver a carência, como um gato que brinca com a baratinha no chão da cozinha antes de devorá-la. Quem ama menos deve ter a decência de sair da vida e da cozinha de quem ama mais. Sair em definitivo, sem telefonemas para perguntar como tá o cachorro, o irmão, a puta que o pariu. Sem e-mails bonitos ou malcriados. Sem covardes mensagens de texto. Amando menos, o silêncio é a maior prova de amor que se pode dar.
Já quem ama mais, mais dia ou menos dia, terá um coração partido. A perda de um amor não lhe confere o direito de perder também a dignidade, no entanto. Há que se recolher ao buraco onde sozinho se esconde nas noites frias. Não se pode dar ao gato o prazer da brincadeira no chão da cozinha. Nunca mais. É o único jeito de fazê-lo quase sofrer, mesmo que por quase dez minutos.

22.12.11

Balas de Coco

Não quero seu amor e não quero te amar. Amores eu já tive e são como balas de coco. Já comeu balas de coco? Pois devia. Amores e balas de coco são deliciosos, mas dificílimos de preparar. A gente perde horas, dias, meses, anos da vida preparando. Uma vez pronto, é uma delícia. Mas aí acaba e você fica com aquela cara de tacho. E com pedaços nos dentes. E com preguiça de voltar à cozinha para preparar mais.
Não. Não quero seu amor, nem quero que você queira o meu, nem almoço de domingo na casa dos sogros e essas merdinhas. Não estou disposto a preparar nada. (De novo). Quero, sim, uma paixão dessas doentias. Dessas que a gente se tranca em casa por dias sem fim e não come mais nada a não ser um ao outro. Fica sem ver parentes, falta ao trabalho, não liga para os amigos, nunca mais vê o sol, ignora o telefone e o interfone... Uma paixão dessas que emagrece, deixa marcas e faz com que a gente nunca mais use roupa. Que faz escorrer prazer de cada centímetro cúbico de corpo. Uma espiral voltada cada vez mais para o nosso interior. Uma paixão dessas que sufoca, dessas que faz enlouquecer qualquer cristão. Paixão de estarrecer a vizinhança.
A eternidade da paixão é muito melhor que a infinitude (finita) do amor. Amando é questão de tempo até que estejamos alugando comédias românticas na locadora. Apaixonados, não. Apaixonada, qualquer dia você aperta meu pescoço até a morte e corta fora meu pau com uma faquinha de passar patê no pão. Apaixonado, talvez um dia eu te ame.

20.12.11

Relevo

Tolere cusparadas e tapas na cara. Tolere socos. Tolere pontapés, disparates, cotoveladas, pisões no pé e até chutes no saco. Tolere palavrões, arranhões, verdades, farpas, unhas e dentes. Tolere greves e protestos. Tolere traições. Tolere que façam xixi na sua escova de dentes e que virem a areia do gato no teu café. Tolere qualquer dessas ações quando praticadas por uma mulher. Tolere porque uma mulher não sabe o que é ter razão. Só não tolere ser bem tratado. Ser bem tratado pode ser fatal.

8.12.11

Coxinhas

Comia coxinhas de frango como as pessoas normais comem pipoca. Gente normal - e normalmente chata - acha normal pagar mais caro na pipoca do que no ingresso do cinema e devora o milho em ebulição ainda durante os trailers. Gente normal não associa, mas pipoca é milho em ebulição.
Eu comia aquelas coxinhas de um real, uma seguida à outra, acho que às vezes nem tinha saco para mastigá-las. Comia e pensava:
- Puxa, que delícia. Isso é tão bom que um dia vai me fazer mal.
A maioria das pessoas - pessoas normais, sem dúvida - acharia aquilo nojento. Eu não. Só achava aquilo tão bom que um dia me faria mal.
E fez. E faz. Provando que gente normal está errada. E que estou morrendo.

14.11.11

"Glória" ou "Puta que Pariu, como Eu Odeio Aviões".


Glória,

Olá! Como estão as coisas nessa cidade de monumentos e pessoas cinzas e sem graça? (Gosto de cinza, você sabe, puro recalque). Espero que esteja tudo bem e que já esteja reintegrada à sua divertidíssima rotina. Mentira, não espero que esteja reintegrada a nada. Aliás, de você não espero nada. Ou espero não esperar.
Sinceramente, Glória, não sei quem chegará primeiro: você ou a carta. Nem bem aquela janelinha de quinas ovais emoldurou seu rosto, virei de costas para que você não me visse de cara inchada e nariz escorrendo - por isso as gotas no papel, desculpa. Corri para o carro e, ao volante, escrevo essas besteiras que agora você lê no aconchego do seu lar. A cada linha que avanço, esbarro na buzina e o segurança me olha com medo. Imaginei que um segurança de aeroporto visse isso o tempo todo, deve ser o primeiro dia desse cara. Odeio aeroportos. Odeio passaportes, companhias aéreas, Polícia Federal, música ambiente e esteiras rolantes. Odeio balcões, odeio a moça no guichê e o terninho azul dela. Odeio também o lenço vermelho em seu pescoço, malas feitas e portas de vidro. Odeio toda essa merda. E aviões, puta que pariu, como eu odeio aviões. Máquinas inventadas com o propósito de levar para longe quem a gente gosta e trazer para perto doenças da selva.
Além desse ódio pelo transporte aeroviário, não sei o que mais estou sentindo nesse instante. Seja lá o que for, sinto que não estou sabendo lidar com isso. Tem gente que chora quando não sabe como lidar com as emoções. Tem gente que vomita. Tem gente que tem câncer. Eu escrevo essas besteiras.
Assim que a porta do avião se fechou - puta que pariu, como eu odeio aviões -, tive vontade de te esquecer. Pensei que o melhor seria que você se acertasse com seu marido. Afinal, nunca estiveram brigados. E que nunca mais voltasse para essa cidade. Minha cidade. No fundo, seu marido é um cara legal. Juro que casaria com ele. Falo palavrão, como carne, piso na grama, bebo - e não me refiro a vinho tinto suave -, tenho uma fonte de renda instável e uma invejável coleção de manias. Ele não.
Mas quem estive tentando enganar? Não quero que vocês se acertem coisíssima nenhuma. Aliás, quero que vocês se acertem pratos, um na cabeça do outro. Quero que você faça as malas e toque a minha campainha. De novo.
Só que não é isso o que você quer. Não sou eu quem você quer. Quando lembrei disso, quis que seu avião caísse. Resolveria as coisas para nós dois. Mais para você do que para mim, até. Mas ele não vai cair. Puta que pariu, como eu odeio aviões. Confesso que cheguei a me imaginar no seu funeral. Eu, seu marido, sua irmã, etc. Situação desagradabilíssima, aliás. Até que me toquei de que nesse hipotético desastre não haveria funeral, porque não encontrariam corpo para enterrar. Por isso, apenas por isso, desejei que seu avião chegasse em segurança ao seu destino. Puta que pariu, como eu odeio aviões.
Em meio às minhas incertezas, não consegui escolher a mais incerta. Não sei o que quero que você queira. Se você optar por ficar aí, espero (e duvido) que seja feliz e não me mande notícias. E que nunca mais venha ao Rio de Janeiro. E que, se vier, me ligue para uma rapidinha, apenas.
Só não me faça, novamente, levá-la ao aeroporto, a fim de te ver levantar vôo rumo à infelicidade, para além das fronteiras da minha vida, nas asas de um caixão de aço, tendo por epitáfio: TAM.
Puta que pariu, Glória, como eu odeio aviões. Volta pra mim. De ônibus.

Beijo.

8.11.11

As Crônicas de Márnio

(Preguiça/resistência enorme de revisar com carinho. Peço a gentileza de ser informado das besteiras que possam vir a ser encontradas na leitura aí embaixo, para que possa minimizar a tragédia..)

Márnio era auxiliar de cartório no décimo ofício de notas, ali na Rua Erasmo Braga, perto do Menezes Cortes. Tão perto que não sabem os menos velhos, mas o Menezes Cortes outrora se chamou Erasmo Braga. O terminal, claro. Até que um acidente de avião vitimou o general-deputado (que pessoalmente não conheci, mas pelos títulos só podia ser boa gente...) e em sua homenagem póstuma rebatizaram o terminal com o nome do falecido. Ali pertinho da Rua Erasmo Braga, sendo esse, por sua vez, pastor. Se há uma profissão que, desde sempre, anda mais caída do que avião de general-deputado é o ofício de pastor. Mas tudo isso ignorava Márnio, como tantos. Ele, como tantos, lembrava-se sempre do Erasmo Carlos quando passava pela supracitada rua do cartório. Com freqüência se flagrava cantarolando: cupara cuparacupara...
Era casado, como tantos, mas, também como tantos, tinha outra. São tantos esses outros tantos que já não se sabe o correto de grafar: “era casado, mas tinha outra” ou simplesmente "era casado e tinha outra". O pior é essa outra que, como tantas, tinha outro, sendo esse outro seu próprio marido. Espera-se que não tenha ficado claro, porque ninguém entendia aquela situação, mesmo pessoalmente. Os próprios substantivos vêm em socorro do nosso entendimento: Márnio casou-se com Alda, mas amava mesmo Rosana. Essa última casada com Gaudêncio, mas amando mesmo ninguém: só passava o tempo. No final de semana passava o tempo com o marido, durante a semana com o amante.
Assim, a vida voava. Na hora do almoço, Márnio deixava o cartório para bater ponto na Rua Senador Dantas, onde Rosana já o esperava em um quarto com cheiro forte de sabão de coco. Depois do “almoço”, Márnio retornava aos seus carimbos e Rosana apanhava um 572 para o regresso a Botafogo, tinha de estender a roupa, que a essas alturas já havia acabado de bater e repousava tranquilamente, dentro da máquina de lavar. Dessa maneira que centenas de outras donas de casa em Botafogo botavam as roupas para bater. Motivo pelo qual os pontos dos horários de almoço dos maridos de suas vizinhas normalmente batiam com algum atraso e marcas de beijo. Bons tempos.
Mas essa fábula urbana é tão prosaica que nada há de fabuloso nas historietas semelhantes de todos os vizinhos e vizinhas infiéis de Rosana, representados por cada janelinha de cada prédio, de cada rua que a rodeava. O que havia de fabuloso se dava em decorrência, justamente, de Gaudêncio, seu próprio marido, aquele com quem dividia a janela nas noites quentes e a cama nas noites frias. Apesar do nome, Gaudêncio não nasceu no sul. Ao contrário, é baiano. Uma vez que trabalhava na Companhia Telefônica Brasileira, cujo edifício é ali pela Mayrink Veiga - a rua carioca, não a perua paulista -, passava a hora do almoço em outro quarto com cheiro de sabão de coco, dois andares acima do quarto de sua esposa no edifício da Rua Senador Dantas. Agora veja só que mundo pequeno, justo com quem? Com Alda, que, há que se recordar, no altar disse o tal "aceito" para Márnio.
Se o horário de almoço do décimo ofício de notas fosse tão generoso quanto o da CTB, com certeza um encontro deveras desagradável, ainda que familiar, teria sido promovido no hall do pecaminoso edifício. Por sorte, a consolidação das leis do trabalho, nossa tão querida CLT, estava mais consolidada no jovem setor da telefonia. Dessa maneira, nos dois anos de encontros potencialmente vexatórios, os quatro jamais se esbarraram. Às vezes protegidos por menos de quinze providenciais minutos.
Estava indo tudo muito bem, obrigado, de ambas as quatro partes. Até que, lá para fora do Brasil, um estrangeiro doido desses se desentendeu com outro e só entenderam que o jeito era aumentar o preço do petróleo. Chamaram de crise e tudo, de tal forma que não havia mais santo capaz de sustentar a gasolina do povo brasileiro. Gente que havia gastado uma baba comprando aqueles carrões americanos enormes se viu na obrigação financeira de encostar os trambolhos nas calçadas e passar a ir para o trabalho no lotação. De vez em quando jogavam óleo queimado em cima só para não castigar muito a pintura, mas dirigir mesmo havia ficado muito caro. A energia escasseou de tal forma que, muito compadecido com a causa do proletário brasileiro, algum general desses que presidia a nossa adorável bagunça teve a brilhante idéia de racionar. Primeiro racionou o raciocínio, depois a energia.
Não fossem os estrangeiros em crise, que desencadearam o racionamento de raciocínio do general, naquela tarde não haveria faltado luz no edifício da Rua Senador Dantas. Nem na tarde seguinte. Nem na tarde seguinte. Porque acredite quem quiser, a luz começou a nos faltar todos os dias, com um rigor militar, tinha hora e bairro certo. Era uma comovente desordem unida da eletricidade.
Rosana e Márnio ainda carregavam os sorrisos pendurados nas orelhas quando entraram no elevador. Era um modelo mais antigo que a república, de porta pantográfica com adornos dourados e um painel de botões madrepérola. Seus dedos indicadores se encontraram graciosamente por cima do botão que os levaria ao térreo. Sorriram de novo. De frente para o espelho, Rosana ajeitou os seios contidos pelo sutiã, pensando que talvez o pulôver vermelho que dera para Gaudêncio de aniversário tenha soltado tinta nessa lavagem. O que, aliás, viria a confirmar dali instantes. Márnio sentia fome e não agüentava mais ter de comer sanduíche de pernil, ao invés de almoçar, para não chegar muito atrasado no regresso ao trabalho. Sem qualquer espécie de aviso prévio, seus devaneios cotidianos, ainda transpassados por polaróides do sexo da última hora, foram interrompidos pelo súbito estalo no elevador. As luzes se apagaram. Cessou o movimento. Ouviram-se gritos cortantes para além das portas e depois um silêncio doído, profundo. Era o silêncio dos culpados.
Não havia muito que fazer. O que havia para ser feito, aliás, havia sido feito há muito pouco tempo. Inicialmente, resistiram à ansiedade de pé, zanzando de um lado para o outro do cubículo escuro. Ambos pensando em seus cônjuges e no mar de tragédias que o inesperado poderia desencadear. Não desconfiavam que, dois andares acima, Gaudêncio e Alda ainda se lavavam do amor um do outro, para que pudessem voltar imaculados ao exterior de suas respeitáveis vidas morais. Se soubéssemos o que se passa dois andares acima, jamais andaríamos de elevador.
De volta à escura caixa da agonia, o casal decidiu sentar e esperar, que era o mais sensato a se fazer. Casar e trair são dois sentidos opostos dentro de uma mesma direção, como os trilhos do Japeri, que tanto nos trazem quanto levam. Embora Rosana não tolerasse o trejeito doce de Gaudêncio expressar seu amor, que velava sua típica intransigência no momento de escolher qualquer coisa que originalmente dissesse respeitos aos dois, sujeitava-se voluntariamente aos seus desígnios já há oito felizes anos. Por mais que Márnio a divertisse, fizesse com que ela se sentisse renovada e desejada, adicionasse sentido a sua habitual existência insípida, preenchesse seu interior e suas tardes, ela era incapaz de passar quinze minutos presa com ele, seja no elevador ou em um casamento. O mesmo se diz do próprio Márnio, que se sentia verdadeiramente homem apenas ao lado - ou em cima - de Rosana, mas a achava bastante superficial quando vestida. Só que à maneira deles - que não nos enganemos, é também a nossa - se amavam em alguma instância. Isso em quinze minutos que pareceram hora e meia.
Quinze minutos suficientes para que Alda e Gaudêncio deixassem o quarto no escuro, trocando um penúltimo beijo no corredor. Mais por hábito do que por qualquer outra coisa, apertaram o botão de madrepérola que comunica ao elevador que alguém o aguarda. Seus dedos indicadores se encontraram. Sorrisos. Beijos.
- Estamos no sexto andar. A gente espera a luz voltar ou desce de escada?
Ela ficou com preguiça de descer. Pernas ainda bambas. Insistiram no botão e sentaram-se à porta da caixa da agonia.
- Vamos esperar um pouco, se não voltar a gente pega a escada. Não quero que você se atrase e perca o emprego.
Novo beijo, esse para disfarçar a agonia de ficar preso no corredor escuro com o amante, que servia para muitas coisas, mas para isso não. Ficaram assim os quatro, sentados dois a dois, dentro e fora da caixa. Se os gringos que começaram com tudo soubessem, teriam feito as pazes de tanto rir. Dessa forma, o amor estava preso nas mãos da sorte, como o elevador estava preso a um cabo de aço. Na outra extremidade do cabo enrosca-se uma roldana, essa sim presa ao teto. Girando-se a roldana no sentido horário, o elevador sobe - vindo a parar no andar de Alda e Gaudêncio, que o haviam convocado. Girando-se a roldana no sentido anti-horário, o elevador desce, libertando-os da acareação.
A roldana e os deuses pararam para assistir ao momento em que a luz voltou. A claridade veio do teto para anistiar os corações culpados nos quartos, que não puderam conter as exclamações de alegria, ouvidas nos corredores e mesmo no elevador, outrora caixa da agonia.
O elevador sobe e os casamentos acabam, mas de maneira bastante literária. Ou o elevador desce e os casamentos perpetuam, de maneira que ninguém nunca tome conhecimento do risco que correram naqueles minutos terríveis, separados por poucos metros. Não pelos feitos da providência divina ou da providência das roldanas - dá no mesmo -, mas por uma questão de lógica, o elevador desceu. O elevador descia quando parou, posteriormente alguém o chamou, mas primeiro ele tem de seguir seu caminho até o final, antes de mudar seu sentido – também como o Japeri. Márnio e Rosana escaparam para as confidentes ruas do centro da cidade antes que o elevador subisse para buscar Gaudêncio e Alda, que em seguida escaparam pelas mesmas ruas.
Continuaram com o relacionamento extraconjugal por mais alguns bons anos, até que Márnio saiu do cartório para ser técnico contábil em uma empresa às margens da Avenida Brasil. Rosana ficou com preguiça, passou a assistir a Vale a Pena Ver de Novo, ao invés de trair, enquanto a roupa batia. Gaudêncio ainda profanou a instituição do casamento com louvor por mais algum tempo, até que a diabetes o obrigou a cortar o doce do almoço, além de lapidar sua libido de maneira consistente. E consistentemente triste.
Mas os quatro permaneceram casados até os dias de hoje, como deveria ser. Aquele foi apenas um almoço longo demais. De vista, todos conhecemos Márnio, Gaudêncio, Alda e Rosana. Eles são como seus avós, talvez sejam até os próprios. Só estão juntos hoje porque o elevador deles desceu. Ainda bem.

30.10.11

Comia o Câncer e o Bebê.

O câncer está com Lula. Essa condição, somada ao mais novo movimento político de sofá da Internet para que nosso excelentíssimo ex-presidente da República se utilize do Sistema Único de Saúde, fez com que eu rompesse um longo silêncio de crônicas. Ultimamente, acho que há mais de um ano, este blog conta apenas com contos e com uma resenha de um documentário que não existe, mas que ninguém sabe. Diferencio o conto da crônica, pois o conto de jornal poderá vir a ser literatura se relido pelos olhos certos daqui cinqüenta anos. A crônica de jornal, se relida pelos olhos certos daqui cinqüenta anos, poderá vir a enrolar o peixe que as madames compram na feira, embora eu admire e pratique os dois gêneros, quando possível. É cruel, mas é verdade, daqui cinqüenta anos absolutamente ninguém vai se lembrar desse texto, ou mesmo do movimento que nós - os populares - promovemos e criticamos, para que Lulinha se utilize das homéricas filas do SUS.
Sobre os oito anos de governo Lula, acho que foi tão ruim quanto teria sido com qualquer outro, de maneira que estou reagindo ao seu câncer, como reagiria ao câncer do Serra, do Aécio, do FHC, ou do ascensorista do Edifício Avenida Central: com um honesto pesar. Porque são seres humanos, mesmo os políticos. O câncer é uma doença terrível e sem cura - como a AIDS, mas também como a gripe - e agora que compomos uma sociedade minimamente civilizada (mas que ainda assiste a reality shows) seria muito feio não torcer para que qualquer um se recupere de um câncer. Mesmo o Sarney, o Mano Menezes ou os roteiristas do Zorra Total.
Mas até aí, morreu Neves e por enquanto apenas ele. Não trouxe nenhuma novidade, mesmo para os eleitores do PSDB. Todos já temos consciência de que somos civilizados e por isso torcemos para a melhoria do estado de saúde do Lula, certo? Espero sinceramente que sim. A questão é lançar mão ou não do Sistema Único de Saúde. Durante seus mandatos, Lula disse mais de uma vez que o SUS é um dos melhores sistemas de saúde do mundo e que, se caísse doente, cairia por lá. Mas a vida, ora vejam, é uma caixinha de surpresas. Quem foi que caiu doente? Pois é, menina. E Lulinha caiu nas graças e nas macas do SUS, ou caiu nas confortáveis camas do Hospital Sírio Libanês? O ascensorista do Edifício Avenida Central que tem câncer está na fila do SUS me contou que até agora não viu o excelentíssimo presidente por lá, não senhora.
Lula está sob os cuidados dos médicos e da tecnologia de ponta do Hospital Sírio Libanês. Preparem as pedras. E é para estar mesmo (embora eu entenda o movimento e até concorde que ele representa algum avanço político). Não importa o que Lula disse no passado, não importa que fique com a pecha de mentiroso caso sobreviva, importa sim que, em um sistema de saúde onde as pessoas ficam noventa dias na fila para conseguir a primeira sessão de radioterapia, quem tem dinheiro que saia da (porra) da fila e vá se tratar no particular mesmo. Ou vocês acham bonito que o ascensorista do Edifício Avenida Central morra na fila esperando que Lulinha resolva desocupar um leito por pura demagogia e populismo? Acho tacanha, acho feio, acho até meio vergonhoso.
Isso porque, assim como Lula jamais se trataria pelo SUS se caísse doente, o SUS jamais foi um sistema de saúde maravilhoso, apesar de ser muito bem pensado. É superior, por exemplo, ao que se tem por saúde pública nos States, que é de dar pena. E por lá, a Hillary Clinton rala o cu nas pedras para conseguir implantar um modelo parecido com o nosso e tem que ouvir as bestas republicanas (que na humilde opinião do cronista são piores que todas as nossas bestas típicas) a chamando de socialista. Já o socialista e socialite Fidel Castro, não saiu de Cuba, que tem um sistema de saúde universal incrível, para tratar dos seus intestinos públicos.
Nunca votei no Lula e não votaria nele na eleição de político para escapar do câncer, se tivesse disputando o segundo turno com o finado José Alencar. José esse que se tratou no mesmo hospital particular. E morreu. Porque escolher entre público ou privado (ainda) não é sinônimo de escolher entre morte e vida, embora as estatísticas favoreçam o sistema particular. Uma boa maneira de escapar ao câncer, aliás, é evitando a política brasileira, que faz mais vítimas do que o microondas e o celular juntos. Lembremos da presidenta Dilma, do próprio Zé Alencar, Mário (pé nas) Covas, Eduardo Suplicy, Luiz Gushiken, Roseana Sarney, José Sarney, Paulo Maluf e até Orestes Quércia, dos dizeres "Quércia vem aí", alguém lembra? Pois é, foi. Se continuarmos assim, o Sarney vai inventar um projeto de estatização do câncer. A maioria desses políticos, aliás, com câncer de próstata. Não dá para não pensar em justiça divina, para quem acredita em Deus, ou em somatização, para quem acredita em Freud, uma vez que os políticos com câncer de próstata são justo os que fazem o povo tomar no c.. Hum, deixa isso para lá, porque no geral a gente é muito careta para rir de piadas com câncer, ainda que em um Justin Bieber da vida.
Nenhum desses políticos se tratou pelo SUS, só a título de curiosidade. Agora, já que o tema é esse, acredito, sim, em um projeto de lei que vise tornar obrigatório o tratamento no SUS para funcionários públicos e familiares, bem como o ensino em colégios públicos para os mesmos. É cruel com quem tem condições de se tratar no Sírio Libanês e mais cruel ainda com quem não tem. Parece até contraditório com o que acabei de declarar sobre a lulice do Lula, mas não é, posto que minha lei abrange apenas doenças não diagnosticadas previamente. E esse remédio é amargo, mas é o único que vislumbro para a cura do câncer que consome o próprio SUS.
Câncer esse que, aliás, também consome o humor. Não cabe aqui trazer as críticas pertinentes a esse fascismo digital contra as piadas, porque o tema aqui é o câncer como doença física, não a doença mental do pessoal no twitter. Mas vale lembrar a essa geração saúde - que curiosamente parece estar perecendo - politicamente correta e sem graça, que piada sobre coisa séria, como o câncer, evita justamente o câncer. Não se levar a sério, aliás, é uma maneira surpreendentemente eficaz de evitar o câncer, segundo o IPE (Instituto de Pesquisas do Eduardo). Sem contar que é uma maneira de conscientizar e criticar de maneira muito limpa e acessível. Quem não gostou que vá se tratar. Pelo SUS.
Termino esse texto com minha sincera - é sério! - esperança na recuperação do ex-presidente. E também do ascensorista do Edifício Avenida Central.

21.10.11

Catolicismo

Dalvina era mais católica que o papa. Bem mais, diga-se. Era catoliquíssima, de um jeito que não se fabrica mais: católica apostólica romana, daquelas que vão à Santa Igreja todo santo dia. Transbordava catolicismo por todos os poros, exibindo sua fé no escapulário que pendia do pescoço, no plástico ao vidro do VW 69 de seu falecido esposo e no enorme crucifixo pendurado na parede da sala de estar, em alusão à cruz em que Cristo morreu pregado, logo após pregar. Dalvina era tão católica que, tivesse Cristo morrido na cadeira elétrica, ao invés do crucifixo teria ela uma baita cadeirona pendurada na parede da sala.
Com exceção da extrema unção, a unção dos mortos, Dalvina passou pelos sete sacramentos da Santa Igreja, sendo católica desde o primeiro deles, o batismo. Fato ocorrido em eras tão priscas que, sua santidade, o Papa João Paulo II, à época era ainda coroinha. A inabalável fé de Dalvina, no entanto, foi potencializada em dois momentos importantes de sua vida. O primeiro deles, quando seu irmão, José Hilário, parou de beber, graças às graças da Santa Edwiges (que disputa com São Judas Tadeu o nicho das causas impossíveis). Seu segundo momento de potencialização da fé foi o falecimento de seu amado esposo, Tobias. Diante da perda de um ente querido, muita gente passa a duvidar dos desígnios de Deus para si, mas não Dalvina! Ela era uma católica exemplar, não se permitia o malefício da dúvida e passou a freqüentar a Igreja com ainda mais afinco. Se é que isso era possível.
Ou seja, se antes a carola já vivia debaixo do orbe o dia inteiro, todo santo dia, viúva então que passou a morar de vez na Igreja, como é bem peculiar das viúvas, coitadas. Principalmente naquela paróquia, onde o pároco era o padre Augusto, presbítero responsável pela comunidade. Diziam as boas línguas que padre Augusto não perdoava uma beata, era conhecido como O Terror da Sacristia, sucedendo o padre Bento, que em seu tempo fora A Fera de Batina. Diziam ainda as boas línguas que padre Augusto não apenas tinha neto, como inclusive já tinha bisneto. Já as más línguas, diziam que apesar de ainda ostentar uma beleza augusta, há muito que o padre não queria nada com a hora do basquete; que não tinha mais condições físicas - se é que está claro - de dar atenção às beatas, mesmo as jovens. Diziam as más línguas, bem com essas palavras, que atualmente a hóstia do padre Augusto estava uma bóstia e que não servia mais para nada. Fato ou boato, sabe-se que padre Augusto era padrinho de mais de vinte crianças daquele rebanho. Afilhado de padre a gente sabe bem o que é...
Mas voltemos à Dalvina. Mirtes, sua vizinha, dizia ter certeza da quedinha, para não dizer do tombo, que Dalvina tinha pelo padre Augusto:
- Só pode ter, e é por uma questão de lógica!
Era o que dizia de sua janela. Mas a opinião de Mirtes era contaminada, já que ela era doida de vontade que o padre também fosse padrinho do seu filho Jurandir, mas o padre não era. Mirtes prosseguia com sua opinião ao matracar com outra vizinha, justificando seu argumento não apenas no fato de que todas as carolas são apaixonadas pelo padre, que reza a lenda tem um baita sacrilégio por debaixo da batina:
- Ora, cansei de ouvir Dalvina dizer que homem pra ela tinha de ser cristão. Desde jovenzinha que ela diz isso, não dá nem a mão se o homem não for declaradamente cristão. Imagina o que não dá se for ateu! Homem que não é cristão, pra ela, nunca foi homem. Então, pela lógica, ela só pode ser apaixonada pelo padre, que é o homem mais cristão que Dalvina conheceu a vida inteira, mais até que o falecido Tobias. Deus o tenha. Eu, particularmente, não entendo isso que essas mulheres tanto vêem no padre Augusto...
E prosseguia desfiando seu rosário de lamúrias e fofocas. Realmente, um apanhado histórico dos amores de Dalvina comprovava o ponto de Mirtes. Aos dezessete anos, da primeira vez que deu a mão a um rapaz, tratava-se de um obstinado ex-coroinha (por sinal velho caso do padre Bento, A Fera, diziam). Depois desse tórrido episódio da mãozinha, casou-se com Tobias, que era tão católico quanto um banana pode ser. Esses foram os dois homens da vida de Dalvina, com exceção do seu católico santo pai e do próprio padre Augusto, que era quase da família.
Provavelmente, Mirtes não passava de uma mexeriqueira recalcada da paróquia, tipo quase característico do meio, aliás. No entanto, tudo indicava que, até o dia em que a geladeira de Dalvina pifou, Mirtes era dona de alguma razão.
Era uma geladeira enorme e marrom, como eram as geladeiras todas naqueles dias. Antes um pouco, eram azuis ou vermelhas e, depois um pouco, sucumbiriam à ditadura do branco, que duraria muitos anos, até o surgimento do inox e da nova ordem mundial.
- Deve ser a borracha. Sempre é.
Presumiu o senso comum. Sobre a geladeira, claro. Formavam-se gotas no teto do refrigerador, de maneira que nada mais se refrigerava lá dentro, em um fenômeno parecido com a menopausa de Dalvina; era uma espécie de menopausa de geladeira. Acontece que consertar geladeiras é uma ciência muito pouco exata, bem mais complexa do que nossa biomedicina, ainda tão escolástica. Sendo Dalvina viúva, não havia condições de mover o trambolho até a Autorizada, de maneira que, preliminarmente, foi até a loja e solicitou ao português no balcão que lhe enviasse alguém em socorro. Coisa que o português tratou de providenciar. Da mesma maneira que atrás de uma bola há sempre uma criança, atrás de um balcão há sempre um português.
Assim, Dalvina voltou até o aconchego do seu lar, que tinha o pé direito alto, bem pintado de branco por dentro e de azul calcinha por fora, embora Dalvina não tivesse calcinha alguma daquela cor. De cor alguma, aliás, que não o dogmático bege. Não as chamava de calcinha também, chamava calçola, como fazem as que aspiram ao reino dos céus. Arrastou o sapato de saltinho - moderno para sua idade - até a cozinha, onde preparou um mate com a garrafa de água que estava menos quente. O barulho da colherinha nas paredes da jarra de vidro abafou o som da campainha, mas ainda assim Dalvina a ouviu. Orgulhava-se da sua audição apurada, apesar dos vinte e três longos anos acumulados de cada lado do sutiã. Talvez a boa audição se deva às vistas ruins que possui, adornadas por óculos de armações enormes, encimando as bolotas rosadas em sua bochecha e um ponto vermelho em sua boca miúda de bico-de-lacre. Foi esse o layout que levou consigo até a porta.
Espiou pelo postigo e, identificando o uniforme encardido, pediu um minutinho. Abriu a porta. Do outro lado do portal, havia um homem que, à primeira vista, parecia dois, de tão grande. Um crioulo que parecia recém chegado da Nigéria, cheio de aminoácidos e testosterona; sem dúvida um belo exemplar. Tinha a testa negra brilhosa de gordura e o uniforme molhado de suor. Era orelhudo de uma maneira charmosa, muito mais que Clark Gable e seus lábios pendiam até o queixo, de tanta carne. Suas vias respiratórias lembravam as obras de duplicação da Avenida Brasil. Seu peitoral era largo e profundo, evidenciando uma barriga saliente, mas proporcional ao corpo de manilha que ostentava. Seus pés estavam comprimidos entre as tiras da sandália de couro que usava, seu dedão era mais grosso que o calcanhar de Dalvina. Com sua voz de baixo-barítono, rompeu o silêncio:
- Vim ver a geladeira.
Sua voz reverberou pela casa e a onda de choque promoveu algum efeito estranho nas células do corpo de Dalvina. Subitamente, esqueceu que estavam ali para tratar da geladeira e, sem perceber, respondeu perguntando:
- O senhor é cristão?
O negro não precisou parar para pensar:
- Não, senhora.
Dalvina sentiu um calor epifânico e atirou-se no pescoço do homem, que parecia um tronco cortado de sequóia, mas seu metro e meio de altura só alcançou até o abdômen:
- Não tem importância!
Ele não entendeu aquilo, mas achou que o mais cristão a se fazer era trazer o frágil corpinho de Dalvina para perto de si. Levou a senhora até o quarto, onde fizeram o que Dalvina não fazia desde alguns anos antes da morte do falecido. Mas aquilo era diferente, era algo que jamais fizera em vida, fizeram amor genuflexoriamente.
Dali em diante, nunca mais foi à Santa Igreja, nem quis mais saber dos sermões do padre Augusto, que definitivamente não era de grandes poderes, se comparado com a vela de sete dias que Dalvina arrumara para si. Viúva que era, poderia, sim, ser esposa do espírito santo. Mas como amante, não servia mais o padre. Desses assuntos, passou a tratar direto com seu Deus de ébano particular. Que além de tudo, consertou o termostato de sua santa geladeira.

25.9.11

A Alvorada do Amor II

E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:

"Chega-te a mim! entra no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençôo o teu crime, acolho o teu desgôsto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!"

E Eva, queria só dar uma rapidinha no caminho.

***

Escrito em parceria com Olavo Bilac

Inconstantino

Inconstantino era uma pessoa tipicamente inconstante, mas nem sempre. Era tão inconstante que às vezes, só para variar, era constante, constante, por dias e dias. Mas nem sempre. Vivia, por exemplo, arrumando briga na praia, pois começava a jogar vôlei, mas lá pelo meio do segundo set resolvia que tinha virado futvôlei e se recusava a usar as mãos. Mas nem sempre. Isso quando não optava pelo frescobol, que muitas vezes se tornava peteca. E às vezes acabava em boxe. Mas nem sempre.
Não era casado, porque não tinha como ser. Mas sonhava em se casar. Mas nem sempre. Tinha uma namorada que às vezes era só conhecida, porque viviam terminando. Mas também faziam juras de amor eterno, que de eterno nada tinham. Mas nem sempre. Diziam de Inconstantino que, de tão inconstante, nada estranhariam se um dia aparecesse com homem. Quando ele ouvia esse tipo de prosa queria logo partir para dentro do desgraçado que inventou essa moda e fazê-lo engolir os próprios dentes. Mas às vezes apenas ria com os camaradas. Mas nem sempre.
Era técnico de radiologia, que é quem opera aparelhos emissores de raios-x. Mas nem sempre. Tinha dia que acordava se sentindo professor e brigava na porta da escola porque queria dar aula para a criançada do bairro. Às vezes acordava se sentindo policial e aí o bicho pegava. Mas nem sempre. Certa vez acordou se sentindo lanterninha e foi para dentro do cinema de ingresso na mão e lanterna em punho, impedindo todo mundo de namorar. Implicou até com o Gregory Peck, quando acordou se sentindo censor, mas parece que o Gegê nem tomou conhecimento lá da tela e se tomou não deu bola. Só que o episódio ficou tão famoso que passaram a chamar o quarteirão do Roxy de Inconstantinopla. Inconstantino se incomodava, mas às vezes não. Às vezes acordava se sentindo vagabundo e não ligava nem fazia nada para ninguém. Dava sorte quando esses dias calhavam de ser domingo, mas a verdade é que nem sempre.
Ele gostava de natação, de cozinhar e de tocar banjo. Mas às vezes se metia a pintar, costurar e bater surdo. E era bom em muita coisa, por estranho que pareça. Certa vez danou de assar um leitão, coisa que demora. Lá pelo meio do tempo de forno, cismou que queria fazer mesmo peixe. Trocou a maçã por alcaparras e danou a cortar o porco em postas, coitado!
Inconstantino era assim; às vezes não, mas nem sempre.

24.9.11

Gilberto Notas

Ninguém conhece a real dimensão de um bloqueio de escritor e não adianta tentar transmitir as escalas dessa sensação tenebrosa. Apenas para parâmetros de comparação, pode-se afirmar sem exagero que é uma vontade de vomitar absurdamente forte cada vez que se depara com uma folha de papel em branco, isso nos casos mais brandos. Gilberto Notas passava por um desses já há trinta anos, muitas vezes, inclusive, chegando às vias de fato. Parece muito, principalmente se considerarmos a sua idade: trinta e seis longos anos, os seis primeiros sem saber escrever.
Mas Gilberto escrevia, vencendo uma dificuldade crescente, desafiando os caprichos dos deuses da literatura que faziam questão de não colaborar, Gilberto enfrentava a náusea e escrevia tão passionalmente que chegava a se ferir. Conseguia, inclusive, pagar o aluguel através de sua escrita. Gilberto era uma espécie de herói e não sabia.
Certa madrugada de batalha, estava Gilberto sentado à sua escrivaninha, contendo o refluxo diante do papel, quando de repente ouve atrás de si aquele efeito de som característico de terceira parte de show de mágica. Olhou para trás esperando que não fosse nada além de uma alucinação auditiva. Ficaria satisfeito com uma alucinação auditiva e talvez até feliz com uma alucinação auditiva. Mas não, era uma mulher seminua. Ela tinha um metro e setenta e três, a pele morena e os olhos verdes. Vestia, se é que se pode chamar aquilo de vestir, uma mini-camisola transparente apropriada para a hora, mas não para a ocasião e ostentava um largo e alvo sorriso. Possuía ainda outras qualidades, mas essas já são suficientes para contemplar a alegria de muita gente.
Gilberto voltou-se para seu trabalho novamente, tentando acreditar que era apenas outro tipo de delírio, mas ainda assim apenas um delírio. Só por desencargo de consciência, olhou para trás novamente, certo de que a mulher teria desaparecido. Ela estava lá e ainda sorria. Gilberto ficou preocupado consigo, mas não ousou falar. A mulher falou por ele:
- Não vai falar comigo?
Esfregou os olhos e olhou em volta. Teve certeza de que estava sozinho, a não ser pela aparição. Achou educado responder:
- Quem é você?
Sem perder o sorriso e o rebolado, ela aproximou-se da mesa e respondeu:
- Sou sua Musa Inspiradora.
Gilberto se viu obrigado a perguntar de novo:
- É quem?
- Sua Musa!
Respondeu acariciando os cachinhos do escritor.
- Isso é alguma brincadeira? Algum amigo meu te pagou uma grana pra vir até aqui e...
- Pareço estar brincando?
Gilberto sentiu-se estranho ao ser tocado pela mulher bonita. Ela era diferente das outras mulheres bonitas que o tocavam, ela parecia ser de verdade.
- Que história é essa de Musa Inspiradora?
- Você sabe, é uma tradição grega...
- Sim, eu sei, mas escrevo há não sei quantos anos e você nunca apareceu antes!
- Isso porque o sindicato dos escritores estabeleceu que só disponibiliza musas para escritores com mais de cem mil exemplares vendidos. E parabéns, acabaram de comprar um livro seu pelo Submarino, você chegou aos cem mil!
Gilberto coçou a cabeça resistente, não queria acreditar no inacreditável. A mulher sentou-se na beirada de sua cama, fez uma pose e uma careta. Completou:
- Inspire-se.
Ele levantou sobressaltado.
- Olha, desculpa, se é que você existe, eu agradeço, mas não vai dar.
Espantada:
- Não vai dar o que?
- Não vai dar nada. Não vai dar nada, filha. Levanta da minha cama, caça teu rumo, não vai dar nada. Desculpa a grosseria, eu tenho que trabalhar, sabe? Não sei se musa paga conta, mas eu tô com uns prazos meio apertados e...
Ela o interrompe:
- Sim, estou aqui pra te ajudar a produzir.
- Não, não... Obrigado, mas não produzo e nem reproduzo com ninguém assistindo. Eu fico meio encabulado, sabe?
- Mas não vou só assistir! Você pode começar me mostrando o que você já fez para que eu possa alterar. Sou formada em letras e tenho pós em literatura comparada, posso te dar umas dicas e revisar também.
- Não mesmo! Você é muito simpática, mas não!
- Como não? Eu sou a chave para o fim de toda a sua náusea literária! Eu conheço seu trabalho, sabia? A gente tinha que ter se conhecido antes, na verdade. Como te deixaram publicar Terror no Mar com aquele final?
- O que é que tem de errado com o final de Terror no Mar, posso saber?
- A barca afunda, oras! Você não se preocupa nem um pouco com o leitor, né? Uma pesquisa americana comprova que tragédias narradas em finais de livros são responsáveis por 15% dos pacientes tidos como deprimidos, sabia?
- Olha, você é muito bonitinha, é simpática, é alfabetizada, ou seja, entende alguma coisa de livros, mas se a barca não afunda, não é terror no mar, não é mesmo?
- Não, mas não pode ser assim. Vamos mudar esse final para a próxima edição!
- Não vamos, não!
- Vamos sim! Eu sou sua Musa e vou te fazer mudar de idéia!
Ela levanta-se de cama e chega bem perto dele, ainda sentado em sua cadeira de computador, o trono improvisado do escritor. Assustado, Gilberto Notas pula da cadeira e corre para dentro do armário embutido. Fecha a porta atrás de si e grita:
- Some, sua louca.
A louca, à porta:
- Volta aqui, Gilberto! Vamos reescrever esse final juntos!
- Não, por favor, some! Não quero Musa! Eu não quero Musa.
De repente ela pára de bater à sua porta.
- Você não pode encarar isso de maneira um pouco mais madura? Será que não foi por isso que a Julia foi embora?
- O que? você sabe da minha vida romântica também?
- Acorda, Gilberto, eu sou sua musa. Sou tudo que você queria em uma mulher. Eu tive que estudar um pouquinho, né?
Gilberto abre um pouquinho a porta do armário e novamente olha para a bela escultura seminua. Estava quase convencido a sair, quando ela volta a falar:
- Vamos combinar que Guerra dos Ansiolíticos também não termina exatamente bem, não é?
Gilberto volta para o armário desesperado:
- Some! Vai embora, por favor! Me esquece! Eu quero vomitar, eu quero vomitar... Liga pro sindicato!
Plácida, responde:
- Por mais que você fale besteiras, meu amor, sou toda perdão! Vamos trabalhar melhor os personagens de O Último Vôo para Frankfurt, vamos?
Tentando se acalmar, Gilberto respira fundo e responde:
- Mas Musa, você realmente estudou minha vida e obra?
- É claro!
- E você é realmente o resultado disso? Você é tudo que eu quero em uma mulher, é isso?
- Sim, tudo tudo. Inclusive fisiologicamente. Eu consigo fazer...
Gilberto a interrompeu por prudência.
- Você não notou que eu nunca quis saber de ninguém que prestasse a menor atenção em mim?
- Como assim?
- Quando você desaparecer, me trocar por outro escritor qualquer, um bosta que faz bico de redator de propaganda de sabonete pra cachorro, aí sim você vai ser interessante pra mim. Aí sim vou correr atrás de você!
A musa ficou em silêncio. Gilberto também, pois as coisas pareciam estar funcionando. Ouviu, então, um barulho de choro abafado do outro lado da porta. O mesmo barulho mágico do início de seus pesadelos. A musa desapareceu por completo. Gilberto abriu as portas e foi até o quarto. Percorreu todo o perímetro buscando vestígios da Musa, que não encontrou. Retornou para sua cadeira, encarou a folha em branco e teve vontade de vomitar. Imediatamente pensou:
- Volta, volta, por favor, volta...
Fosse como fosse, ninguém disse em momento algum que ele não era feliz.