Ninguém conhece a real dimensão de um bloqueio de escritor e não adianta tentar transmitir as escalas dessa sensação tenebrosa. Apenas para parâmetros de comparação, pode-se afirmar sem exagero que é uma vontade de vomitar absurdamente forte cada vez que se depara com uma folha de papel em branco, isso nos casos mais brandos. Gilberto Notas passava por um desses já há trinta anos, muitas vezes, inclusive, chegando às vias de fato. Parece muito, principalmente se considerarmos a sua idade: trinta e seis longos anos, os seis primeiros sem saber escrever.
Mas Gilberto escrevia, vencendo uma dificuldade crescente, desafiando os caprichos dos deuses da literatura que faziam questão de não colaborar, Gilberto enfrentava a náusea e escrevia tão passionalmente que chegava a se ferir. Conseguia, inclusive, pagar o aluguel através de sua escrita. Gilberto era uma espécie de herói e não sabia.
Certa madrugada de batalha, estava Gilberto sentado à sua escrivaninha, contendo o refluxo diante do papel, quando de repente ouve atrás de si aquele efeito de som característico de terceira parte de show de mágica. Olhou para trás esperando que não fosse nada além de uma alucinação auditiva. Ficaria satisfeito com uma alucinação auditiva e talvez até feliz com uma alucinação auditiva. Mas não, era uma mulher seminua. Ela tinha um metro e setenta e três, a pele morena e os olhos verdes. Vestia, se é que se pode chamar aquilo de vestir, uma mini-camisola transparente apropriada para a hora, mas não para a ocasião e ostentava um largo e alvo sorriso. Possuía ainda outras qualidades, mas essas já são suficientes para contemplar a alegria de muita gente.
Gilberto voltou-se para seu trabalho novamente, tentando acreditar que era apenas outro tipo de delírio, mas ainda assim apenas um delírio. Só por desencargo de consciência, olhou para trás novamente, certo de que a mulher teria desaparecido. Ela estava lá e ainda sorria. Gilberto ficou preocupado consigo, mas não ousou falar. A mulher falou por ele:
- Não vai falar comigo?
Esfregou os olhos e olhou em volta. Teve certeza de que estava sozinho, a não ser pela aparição. Achou educado responder:
- Quem é você?
Sem perder o sorriso e o rebolado, ela aproximou-se da mesa e respondeu:
- Sou sua Musa Inspiradora.
Gilberto se viu obrigado a perguntar de novo:
- É quem?
- Sua Musa!
Respondeu acariciando os cachinhos do escritor.
- Isso é alguma brincadeira? Algum amigo meu te pagou uma grana pra vir até aqui e...
- Pareço estar brincando?
Gilberto sentiu-se estranho ao ser tocado pela mulher bonita. Ela era diferente das outras mulheres bonitas que o tocavam, ela parecia ser de verdade.
- Que história é essa de Musa Inspiradora?
- Você sabe, é uma tradição grega...
- Sim, eu sei, mas escrevo há não sei quantos anos e você nunca apareceu antes!
- Isso porque o sindicato dos escritores estabeleceu que só disponibiliza musas para escritores com mais de cem mil exemplares vendidos. E parabéns, acabaram de comprar um livro seu pelo Submarino, você chegou aos cem mil!
Gilberto coçou a cabeça resistente, não queria acreditar no inacreditável. A mulher sentou-se na beirada de sua cama, fez uma pose e uma careta. Completou:
- Inspire-se.
Ele levantou sobressaltado.
- Olha, desculpa, se é que você existe, eu agradeço, mas não vai dar.
Espantada:
- Não vai dar o que?
- Não vai dar nada. Não vai dar nada, filha. Levanta da minha cama, caça teu rumo, não vai dar nada. Desculpa a grosseria, eu tenho que trabalhar, sabe? Não sei se musa paga conta, mas eu tô com uns prazos meio apertados e...
Ela o interrompe:
- Sim, estou aqui pra te ajudar a produzir.
- Não, não... Obrigado, mas não produzo e nem reproduzo com ninguém assistindo. Eu fico meio encabulado, sabe?
- Mas não vou só assistir! Você pode começar me mostrando o que você já fez para que eu possa alterar. Sou formada em letras e tenho pós em literatura comparada, posso te dar umas dicas e revisar também.
- Não mesmo! Você é muito simpática, mas não!
- Como não? Eu sou a chave para o fim de toda a sua náusea literária! Eu conheço seu trabalho, sabia? A gente tinha que ter se conhecido antes, na verdade. Como te deixaram publicar Terror no Mar com aquele final?
- O que é que tem de errado com o final de Terror no Mar, posso saber?
- A barca afunda, oras! Você não se preocupa nem um pouco com o leitor, né? Uma pesquisa americana comprova que tragédias narradas em finais de livros são responsáveis por 15% dos pacientes tidos como deprimidos, sabia?
- Olha, você é muito bonitinha, é simpática, é alfabetizada, ou seja, entende alguma coisa de livros, mas se a barca não afunda, não é terror no mar, não é mesmo?
- Não, mas não pode ser assim. Vamos mudar esse final para a próxima edição!
- Não vamos, não!
- Vamos sim! Eu sou sua Musa e vou te fazer mudar de idéia!
Ela levanta-se de cama e chega bem perto dele, ainda sentado em sua cadeira de computador, o trono improvisado do escritor. Assustado, Gilberto Notas pula da cadeira e corre para dentro do armário embutido. Fecha a porta atrás de si e grita:
- Some, sua louca.
A louca, à porta:
- Volta aqui, Gilberto! Vamos reescrever esse final juntos!
- Não, por favor, some! Não quero Musa! Eu não quero Musa.
De repente ela pára de bater à sua porta.
- Você não pode encarar isso de maneira um pouco mais madura? Será que não foi por isso que a Julia foi embora?
- O que? você sabe da minha vida romântica também?
- Acorda, Gilberto, eu sou sua musa. Sou tudo que você queria em uma mulher. Eu tive que estudar um pouquinho, né?
Gilberto abre um pouquinho a porta do armário e novamente olha para a bela escultura seminua. Estava quase convencido a sair, quando ela volta a falar:
- Vamos combinar que Guerra dos Ansiolíticos também não termina exatamente bem, não é?
Gilberto volta para o armário desesperado:
- Some! Vai embora, por favor! Me esquece! Eu quero vomitar, eu quero vomitar... Liga pro sindicato!
Plácida, responde:
- Por mais que você fale besteiras, meu amor, sou toda perdão! Vamos trabalhar melhor os personagens de O Último Vôo para Frankfurt, vamos?
Tentando se acalmar, Gilberto respira fundo e responde:
- Mas Musa, você realmente estudou minha vida e obra?
- É claro!
- E você é realmente o resultado disso? Você é tudo que eu quero em uma mulher, é isso?
- Sim, tudo tudo. Inclusive fisiologicamente. Eu consigo fazer...
Gilberto a interrompeu por prudência.
- Você não notou que eu nunca quis saber de ninguém que prestasse a menor atenção em mim?
- Como assim?
- Quando você desaparecer, me trocar por outro escritor qualquer, um bosta que faz bico de redator de propaganda de sabonete pra cachorro, aí sim você vai ser interessante pra mim. Aí sim vou correr atrás de você!
A musa ficou em silêncio. Gilberto também, pois as coisas pareciam estar funcionando. Ouviu, então, um barulho de choro abafado do outro lado da porta. O mesmo barulho mágico do início de seus pesadelos. A musa desapareceu por completo. Gilberto abriu as portas e foi até o quarto. Percorreu todo o perímetro buscando vestígios da Musa, que não encontrou. Retornou para sua cadeira, encarou a folha em branco e teve vontade de vomitar. Imediatamente pensou:
- Volta, volta, por favor, volta...
Fosse como fosse, ninguém disse em momento algum que ele não era feliz.